terça-feira, 21 de junho de 2011

Como eu não possuo


Olho em volta de mim. Todos possuem ---

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.
 

Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo para ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lodo.


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo...

Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor...

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...


Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo de êxtases doirados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo”.


Mário de Sá-Carneiro

11 comentários:

  1. Peônia, escolheu maravilhosamente esse poema.
    Lindo demais!
    beijokas

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  2. Muito lindo esse poema, parabéns.Beijos

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  3. Um poema bonito. O meu abraço a você, Yayá.

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  4. Que lindoooo!

    Está sendo uma delícia vir aqui!

    Bjs, Tânia Camargo

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  5. Peônia
    Lindo poema!Tenha bons sonhos!Bjkas com muito carinho!

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  6. Um poema que é um frémito de desejo!
    Divina esta forma de cantar o amor e o desejo.

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  7. Bela escolha, Peônia.

    SOL da Esteva
    http://acordarsonhando.blogspot.com/

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  8. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog mundo suspenso. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

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  9. Que poema! Ter e ser possuído, morrer de amar... Contra isso não há solução; rsrsrs
    Bjs!

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  10. Que lindo o poema, fiquei esperando para ouvir, linda melodia, adorei tudo!

    beeijo*

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  11. Lindo!
    Poeta, gostaria de ter escrito este poema. Parabéns!

    "De embate ao meu amor todo me ruo,

    E vejo-me em destroço até vencendo:

    É que eu teria só, sentindo e sendo

    Aquilo que estrebucho e não possuo”.

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