domingo, 29 de maio de 2011

Uma arte


Imagem: nutellacombanana.blogspot.com

A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.


Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.


Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.


Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.

Elizabeth Bishop

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Three Seasons

Imagem: nautiljon.com
  
“Alguém poderá varrer as folhas de uma floresta?
E dizer ao vento para não sacudir mais as árvores?
Quantas folhas um bicho-da-seda tem de comer
para fazer um vestido com as cores do passado?
Quanta chuva deve cair do céu
antes de o oceano transbordar de lágrimas?
Quantos anos a lua tem de ter
antes que envelheça?
No meio da noite a lua vem e fica a espreitar
ele que pode roubar o meu coração.
Sempre cantarei canções de alegria.”

Filme: Três estações
http://www.youtube.com/watch?v=0ORvrel1K3c&feature=related

terça-feira, 24 de maio de 2011

Saudades

"Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi..."

Clarice Lispector

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A Árvore da Vida


A ser lançado no final de junho no Brasil o filme "A Árvore da Vida" trata da maravilhosa, mas delicada relação entre pai e filho, expandindo-a ao longo dos séculos, desde o Big Bang até o fim dos tempos, numa viagem esplendorosa! Um percurso pela vida e seus mistérios, abrangendo temas como amor e perdão. Super recomendado!

“A fantasia é a mãe da satisfação, do humor, da arte de viver.  Apenas floresce alicerçada num íntimo entendimento entre o ser humano e aquilo que objetivamente o rodeia.  Esse ambiente envolvente não tem de ser belo, singular ou sequer encantador. Basta que tenhamos tempo para a ele nos habituarmos, e é sobretudo isso que hoje em dia nos falta.”

 Hermann Hesse


sábado, 21 de maio de 2011

Deixa...

"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente."

Caio F. Abreu

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Não tenha medo



Não tenha medo
Me faça seu travesseiro
Aquela roupa eu nem tirei
Só pra dormir com seu cheiro

Aquele beijo de boa-noite
Ainda queima em minha boca
Nem o café esconde o gosto
Em sonhos vejo seu rosto

Você é a estrela do mar profundo
Caiu do céu no meu mundo
Se eu fico longe, só um tiquinho
Pouco mais que um segundo

A corda quebra, o carro para
O riacho fica fundo
A corda quebra, o carro para
O riacho fica fundo

Não tenha medo
Lhe ajudo na travessia
Não sei nadar
Pra flutuar, basta a sua companhia...


Maria Bethânia
Composição: Miltinho Edilberto

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Saudade...

Imagem: trescoisas.wordpress.com
"Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu

É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais
Teu cheiro me dá prazer
Quando estou com você
Estou nos braços da paz..." 


Composição: Nando Cordel / Dominguinhos

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ausência

Imagem: diariodedeise.blogspot.com
"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Draghi interiori

Imagem: poesiasgraci.blogspot.com

"Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:
- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce. Não, isso também não é verdade."

 Caio F. Abreu 

domingo, 15 de maio de 2011

A bela dama sem piedade

Imagem: br.olhares.com

"Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,

Sozinho, pálido e vagarosamente passando?

As sebes tem secado as margens do lago,

E nenhum pássaro canta.

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?

Sua face mostra sofrimento e dor.

A toca do esquilo está farta,

E a colheita está feita.

Eu vejo uma flor em sua fronte,

úmida de angústia e de febril orvalho,

E em sua face uma rosa sem brilho e frescor

Rapidamente desvanecendo também.

Eu encontrei uma dama nos campos,

Tão linda… uma jovem fada,

Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,

E selvagens eram seus olhos.

Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,

E braceletes também, e perfumes em volta;

Ela olhou para mim como se amasse,

E suspirou docemente.

Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,

E nada mais vi durante todo o dia,

Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava

Uma canção de fadas.

Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,

mel selvagem e orvalho da manhã,

E em uma estranha linguagem ela disse…

"Verdadeiramente eu te amo."

Ela me levou para sua caverna de fada,

E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,

E lá eu fechei seus selvagens olhos

Com quatro beijos.

E lá ela cantou docemente para que eu dormisse

E lá eu sonhei…Ah! tão sofridamente!

O último dos sonhos que eu sempre sonhei

Nesta fria borda da colina.

Eu vi pálidos reis e também príncipes,

Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;

Eles gritaram…"A Bela Dama sem Piedade

Tem você escravizado!"

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,

Abertos em horríveis avisos,

E eu acordei e me encontrei aqui,

Nesta fria borda da colina.

E este é o motivo pelo qual permaneço aqui

Sozinho e vagarosamente passando,

Descuidadamente através das sebes as margens do lago,

E nenhum pássaro canta."


John Keats

terça-feira, 10 de maio de 2011

Esperemos

"Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato."


Pablo Neruda

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O milagre das folhas

Imagem: Blog Meio desligado

"Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos meus cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo. Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza!"

Clarice Lispector

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Il mio cuore

Imagem: blog.ftofani.com

"Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso."

C. F. Abreu

segunda-feira, 2 de maio de 2011

L'équilibre

Imotion Imagens

As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas."

Sophia Andresen