quinta-feira, 30 de junho de 2011

Canção do dia de sempre

                        Imagem: Google
 
Tão bom viver dia a dia... 
A vida assim, jamais cansa... 

Viver tão só de momentos 
Como estas nuvens no céu... 

E só ganhar, toda a vida, 
Inexperiência... esperança... 

E a rosa louca dos ventos 
Presa à copa do chapéu. 

Nunca dês um nome a um rio: 
Sempre é outro rio a passar. 

Nada jamais continua, 
Tudo vai recomeçar! 

E sem nenhuma lembrança 
Das outras vezes perdidas, 
Atiro a rosa do sonho 
Nas tuas mãos distraídas... 



Mario Quintana

terça-feira, 28 de junho de 2011

Silenzio e solitudine

Imagem: Google

"Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas

que parecem negativas, e foram sempre positivas

 para mim: Silêncio e Solidão.

Essa foi sempre a área da minha vida.

Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos

mundos geométricos, onde relógios revelaram o segredo

 de seu mecanismo  e as bonecas, o jogo do seu olhar...”


Cecília Meireles
 

domingo, 26 de junho de 2011

I dreamed a dream

foto
Imagem: flickr.com

Sonhei um sonho

Com o tempo já acabado
 
Quando a esperança era alta

E viver valia à pena

Sonhei que esse amor

Nunca morreria

Sonhei que Deus perdoaria

Que eu era jovem e destemida

Quando sonhos foram feitos

E usados e desperdiçados

Não houve resgate a ser pago

Nem canção não cantada

Ou vinho não provado

Mas os tigres vêm à noite

Com sua voz suave

Como um trovão

Como eles despedaçam

Sua esperança

Transformando seus sonhos

Em vergonha

E ainda assim

Sonhei que ele veio até mim

E que viveríamos os anos juntos

Mas há sonhos

Que não podem ser

E há tempestades

Que não podemos prever

Eu tive um sonho

Que minha vida seria

Tão diferente deste inferno

Que estou vivendo

Tão diferente daquilo que parecia

E agora a vida

Matou o sonho

Que eu sonhei.

  
Do musical "Les Miserables". 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Liberdade...

Imagem: Google

"A busca da liberdade
é a única força que eu conheço...
Liberdade de voar pelo infinito...
Liberdade de dissolver-se,
de elevar-se,
de ser como a chama de uma vela,
que mesmo enfrentando
a luz de bilhões de estrelas
permanece intacta,
porque nunca pretendeu
ser mais do que é:
a chama de uma vela.”


Carlos Castañeda

terça-feira, 21 de junho de 2011

Como eu não possuo


Olho em volta de mim. Todos possuem ---

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.
 

Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo para ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lodo.


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo...

Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor...

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...


Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo de êxtases doirados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo”.


Mário de Sá-Carneiro

domingo, 19 de junho de 2011

Szerelem...

Imagem: Google
"Eu carrego o seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Eu nunca estou sem ele
Aonde quer que eu vá,
Você vai minha querida.
E o que quer que eu faça sozinha
Foi você, minha querida.
Eu não temo o destino
Porque você é o meu destino minha doçura.
Eu não quero o mundo
Por mais belo que seja
Porque você é o meu mundo.
Minha verdade.
Esse é o maior dos segredos que ninguém sabe.
Você é a raiz da raiz
É o botão do botão
E o céu do céu
De uma árvore que cresce
Mais alto do que a alma pode esperar
Ou a mente esconder.
Este é o milagre que distancia as estrelas.
Eu carrego seu coração
Carrego no meu coração".


E .E. Commings

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Il mio cuore


Imagem: Google

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.


Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.


Caio F. Abreu

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sustenido

Imagem: Google
“Você se atreve a sair?
Você se atreve a entrar?
Quanto pode perder?
Quanto pode ganhar?
Se você entrar vai pra esquerda ou direita?
Vai até a metade ou nem isso tenta?
Você ficou tão confuso que começa devagar
Pistas longas e com curvas e você tem que acelerar
E andar muitos quilômetros em todo tipo de lugar fútil
Até que chega com temor a um lugar ainda mais inútil
Um lugar de espera
Pra gente apenas esperar
Por um trem que vai partir
Ou um ônibus que vai chegar
Ou o avião decolar
Ou a correspondência chegar
Ou a chuva passar
Ou o telefone tocar
Ou a neve tocar o chão
Ou esperar por um sim, ou um não
Ou um colar de pérolas
Ou um olhar de relance
Ou uma peruca com cachos
Ou outra chance”.

Excerto de "Um Crime de Mestre".

terça-feira, 14 de junho de 2011

L'affetto di un poeta

Imagem: arsnatura

"Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros."

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Parabéns Pessoa!

Imagem: Google

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".

Fernando Pessoa



Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa, nasceu em Lisboa, mas foi criado em Durban, na África do Sul, onde viveu dos 6 aos 17 anos; lá aprendeu a língua inglesa,  traduzindo  poemas para o português e criando, nessa língua, grande parte de sua produção artística. Pessoa completaria 123 anos hoje, 13 de junho de 2011, caso estivesse vivo. Foi um dos principais poetas da língua portuguesa.

sábado, 11 de junho de 2011

O Amor! (Omaggio a un arcangelo)


"Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando."


Pablo Neruda

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Saudade...

Imagem: anareczek.blogspot.com



"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida".


Clarice Lispector

terça-feira, 7 de junho de 2011

Epifania...


"Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tempo incapazes de ver uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que recomponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome..."

Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Renovación

Imagem: Peônia (Arquivo pessoal)
"Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu..."

Alberto Caeiro


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Tributo

Imagem: Google 

"O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons de uma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e supremo termo que poderão atingir é essa serenidade."

Hermann Hesse in "O Jogo das Contas de Vidro".

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Desideri...

Imagem: Blog Bastidores

 "Eu descobri em mim mesmo desejos os quais nada nesta terra podem satisfazer, a única explicação lógica é que eu fui feito para um outro mundo."

C. S. Lewis